O futuro é incerto, mas quando ele chega, não pra ignorá-lo. Digo isso porque as vezes as pessoas têm o costume de se apegar tanto as coisas erradas do presente, que quando tudo muda elas não conseguem acompanhar o novo momento. Isso foi o que aconteceu com o ‘herói’ da nossa história: Manoel, mais afamado como Mano ‘el Drogadito’.
Eufemismos à parte pra não ficar enrolando no texto, Drogadito era traficante. E usuário também, mas só nas ‘horas vagas’. Seu ofÃcio aqui era o que ele gostava de chamar de ‘fácil’. Ele conhecia uns caras aà que conheciam outros caras barras pesadas que traziam carregamentos de entorpecentes da BolÃvia e Peru e refinavam elas em laboratórios pela periferia de Rio Branco. DaÃ, ele pegava a droga é só revendia pro ‘mercado local’.
Manél faturava uma grana, e ficava longe de encrencas policiais. E assim levava a vida. Vez ou outra chegou a ser preso, mas passou só uns anos e meses nas prisões refletindo e criando mais contatos de fornecedores. Quando saÃa, os negócios ficavam melhores.
Tudo era simples pra ele. Simples demais. Mas tudo o que é demais não dura. O tempo passa e traz mudanças. E tudo muda...
Certo dia, após anos de ações repressivas centradas exclusivamente contra traficantes, o poder público mudou a sua estratégia de enfrentamento às drogas. Passou a ampliar seus esforços não só na prisão dos agentes do tráfico, mas também na reabilitação de usuários. Drogadito nem deu ouvidos. Para ele, eram só mais medidas de demagogia governistas pra tentar dizer que iriam acabar com os entorpecentes. E aà foi seu erro, e sua falência.
Manoel seguiu sua rotina de tráfico como sempre, mas cada vez mais as ações de amparo aos dependentes aumentavam. Eram recursos federais que ampliavam ações de policiamento, inauguração de centros de ajuda aos usuários, marchas de conscientização, medidas de reforço na inteligência da Segurança Pública para acabar com redes de tráfico, e mais e mais ações. Drogadito foi perdendo, gradativamente, sua clientela. E o cerco fechou nele.
Passou a faturar bem menos, ser pego mais vezes (com estadas que nem sempre eram tão proveitosas na cadeia), ficou ‘marcado’ pela polÃcia para não agir mais, e seus pedidos da ‘branca de neve’ passaram a não chegar com a mesma frequência de antes. Em resumo, Drogadito ficou na pior. Mas insistiu no ofÃcio, até acabar preso e não conseguir mais os mesmos benefÃcios de semiliberdade que sempre o livravam da prisão.
Mano não soube a hora de parar e não entendeu que o Acre já não facilitava mais tanto o tráfico de drogas local e a entrada indiscriminada delas como nos tempos de outrora. Tudo mudou, menos ele.
* Tiago Martinello é jornalista.
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