Chegou o tempo de releituras. Por isso, a literatura brasileira é um refúgio necessário. E, por mais que se esforce, é difícil começar a rever antigas letras tupiniquins se não for pela pena do Bruxo do Cos-me Velho.
Dificilmente, alguém planeja a empresa iniciando por Bilac, José de Alencar ou Cruz e Souza. Concorrendo com Machado, estão Graciliano, Clarisse e Guimarães Rosa. A busca quase instintiva pelo bruxo talvez tenha natureza inconsciente, mas jamais inconsequente.
Busca-se a prosa machadiana pelo paradoxo daninho que se traz no gene; pelas contradições de uma sociedade pseudo-burguesa-liberal ainda servida pela força da chibata à época do Brasil oitocentista; ou pela falta de graça intrínseca à condição humana inerente a qualquer época.
Em Machado, busca-se uma espécie de glossário ou prefácio da existência que explique a miséria humana sem nenhuma máscara. É como se alguém estivesse (mesmo sem saber direito o motivo) querendo saber por que sou assim?
E, ao escolher o capítulo seguido da referida página, o leitor vai se desnudando. Mas, não é o despir vulgar dos amantes apressados. É antes a vergonha exposta de forma sugerida. Lentamente.
“No romance machadiano praticamente não há frase que não tenha segunda intenção ou propósito espirituoso”, ensina o professor Roberto Schwarz, no ainda não superado Um mestre na periferia do capitalismo_ Machado de Assis.
Por isso, lê-se e rir-se nas linhas de Machado de Assis exige boa dose de canalhice e falhas no caráter. É quando o leitor se pega com o riso faceiro, imperceptível, gargalhando com olhos, motivado pela sua própria conduta.
Esse contexto obriga, portanto, um leitor um pouco mais tarimbado nas falhas. Gente nova, diz a tradição, errou pouco. As cãs (ou ao menos o início do surgimento delas) apontam um leitor mais preparado para aguentar as ironias, as sugestões, o refinamento crítico de um dos maiores nomes da literatura universal.
Como não podia deixar de ser, Machado está longe da unanimidade. Alguns críticos literários o consideram com espírito demasiadamente british para o escracho brasileiro: identificam-se mais com a prosa de Lima Barreto, ainda hoje (é bem verdade) o mais injustiçado pela academia e pelo mercado editorial brasileiro.
Nas próximas semanas, o leitor desta A Gazeta terá oportunidade de conhecer (junto com o escriba) um pouco mais sobre a obra de Machado de Assis. Porque algumas coisas precisam ser detalhadas; exigem maior esforço para leitura.
Esse grau de detalhe só é perceptível por meio da arte. Algo superior ao cotidiano registrado em fatos, intrigas e promessas não cumpridas. Nesse aspecto, só a arte sublima; só ela eleva; só ela emancipa. O convite está feito.
Itaan Arruda é jornalista.
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