Já foram alocados no orçamento do ano que vem treze bilhões e quatrocentos milhões para o programa bolsa-família que vai contemplar doze milhões de famílias. O salário-mínimo não terá aumento substancial, ficará em 538,00. Os fornecedores e donos de empreiteiras doaram 45 milhões para a candidatura de Dilma Rousseff. Foram destinados para o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, em 2011, doze bilhões. Até 2014, haverá quatorze trilhões para empreiteiros e fornecedores fazerem a festa, e tudo combinado com elevação mínima dos encargos trabalhistas.
A reforma do Palácio do Planalto ficou em torno de 103 milhões. Os anexos onde trabalhavam os funcionários da casa foram para o andar de baixo e os assessores especiais para as torres. Também foram destinados dois milhões e meio para despesas com a “transição”, ou seja, para as despesas com pessoal e materiais necessários ao processo de transferência de informações de um governo para outro.
Em recente entrevista a uma repórter da Rede Globo, o ator Marco Nanini que estréia novo espetáculo sobre o consumismo disse que o Brasil possui hoje a maior frota privada de helicópteros do mundo. De fato, São Paulo ultrapassou New York em frota de helicópteros particulares. O salário de oitenta mil reais declarado pelo candidato ao senado Jorge Viana, do Acre, pela ocupação do cargo de membro do Conselho Administrativo da Helibrás, fábrica brasileira de helicópteros subsidiária da multinacional Eurocopter, a mim, parece irrisório.
Quando Nicolas Sarkozy esteve no Brasil, o Governo Lula assinou um contrato de cinco bilhões e dois milhões com a Eurocopter, que detém 76% das ações da Helibrás, para o fornecimento de cinqüenta helicópteros para as Forças Armadas Brasileiras. Jorge Viana foi, inclusive, homenageado na França naquele período. O Governo assinou ainda outro contrato de 375,8 milhões para manutenção e modernização de 34 helicópteros do modelo pantera. Dez por cento das vendas da Helibrás, para civis, governos e Forças Armadas, são para países da América Latina. O discurso nacionalista do Lula é duvidoso porque sabemos bem das garantias que as multinacionais têm para se instalar e produzir em nosso país. Além disso, os Correios, um dos nossos símbolos nacionais, vai se tornar Correios S.A., o governo também fez leilões de poços de petróleo e a Petrobras já apresenta participação do capital privado. O petróleo não é mais nosso.
Marco Nanini também disse que as filiais das grandes grifes européias têm seu maior mercado no Brasil. Logo depois o repórter da Globo News noticiou que mais de setenta por cento das famílias brasileiras estão endividadas, sendo que o volume de suas dívidas ultrapassa em cinco vezes o valor de suas rendas. Representam a contrapartida dos que podem comprar helicópteros e, roupas e calçados das grifes européias.
Mas, a chamada sociedade civil organizada começa a se mobilizar, como nos tempos da Ditadura Militar. A carta do Cimi publicada no Ecodebate no dia 8 de junho deste ano, que resultou de um encontro em Rio Branco com indígenas do Brasil, Peru e Bolívia, denuncia o Governo Federal devido ao IIRSA, Iniciativa para Integração de Infra-estrutura na América do Sul, por representar “políticas de realizações desenvolvimentistas nos três países que favorecem o capital nacional e multinacional possibilitando o acesso, o uso e controle dos recursos naturais para os mercados internacionais”. A carta denuncia as forças legislativas encarregadas de flexibilizar as leis ambientais, àquelas de comercio exterior, de uso das terras indígenas e das unidades de conservação; denuncia os empresários do agronegócio e até alguns comandos das Forças Armadas. A Carta afirma que as audiências públicas são manipuladas para dar a impressão de participação diante de exigências internacionais e que, verdadeiramente, servem para referendar projetos já decididos. E ainda, “que a concessão de florestas públicas é uma forma de colocar os recursos naturais nela existentes para o capital privado com expulsão de indígenas e camponeses, sem indenização e com a ajuda dos órgãos do estado”.
O grupo kaiowá-guarani, do Mato Grosso do Sul, em carta aberta ao presidente Lula disse que vai denunciá-lo junto à ONU e aos tribunais internacionais, por ter prometido a demarcação de suas terras e não ter cumprido destacando a enrolação típica e constante com qual os povos indígenas vêm sendo tratados, por toda parte. No caso dos Kaiowá-Guarani, dois professores indígenas foram assassinados. Em geral os crimes desse tipo que vêm acontecendo não são divulgados pela mídia. Por causa da resistência ferrenha dos indígenas e ribeirinhos da bacia do Xingu, que se opõem à construção da hidrelétrica de Belo Monte, o presidente Lula pousou em Altamira, saiu do avião para um helicóptero militar, com forte aparato de segurança, dirigindo-se ao estádio cercado por muros onde fez um discurso de oito minutos apenas.
Cientistas reunidos na Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de são Paulo - contestaram o projeto em tramitação no congresso nacional que altera o Código Florestal brasileiro a ser votado em plenário, após as eleições. Eles contestaram a falta de participação da comunidade científica na elaboração do documento que vai interferir na biodiversidade brasileira. Eles adjetivaram o fato como “absurdo”, “um tiro no pé”, “sem fundamentação científica”, “consolidação do desmatamento”. Todo o conhecimento da área ambiental foi ignorado, disse Carlos Alberto Joly coordenador do Biota-Fapesp que mapeia toda a biodiversidade de São Paulo. Ele disse que a mudança no Código vai alterar o equilíbrio hídrico, a fauna, a flora, e que vai afetar sobremaneira a agricultura. Os ruralistas comemoram porque não vão mais ser obrigados a recompor vegetação nas áreas que devastaram, nem pagar multas e vão poder desmatar mais. Aqueles cientistas também publicaram sua carta na revista Science e a enviaram à SPBC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e à ABC - e à Academia Brasileira de Ciências. E não vão parar.
Se antes a luta se inscrevia na relação capital-trabalho humano hoje se dá na relação capital-trabalho feito pela natureza para que fiquem reservas para as gerações futuras. Em apenas quinze minutos um homem munido de motosserra destrói oitenta anos de trabalho da natureza. Essa compreensão levou Marina Silva a sair de um Governo que apóia desmatamentos e constrói hidrelétricas para fornecer energia à exploração dos nossos minérios pelo capital estrangeiro que deixa populações tradicionais na miséria. A atitude de Marina demonstra que seus princípios não são negociáveis. Ela se expôs, como um Cristo, ao sacrifício. Cada voto depositado para Dilma Rousseff, no Acre, será uma chicotada em Marina Silva. Uma provável vantagem será como se colocassem nela uma coroa de espinhos.
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