Na semana passada um estudante de Sociologia de São Paulo ligou para esta redação com o objetivo de esclarecer uma dúvida: o porquê de no Acre o PT liderar a disputa pelo governo e uma cadeira do Senado, e Dilma Rousseff, a candidata de Luiz Inácio Lula da Silva, estar atrás do tucano José Serra. Como podia um Estado governado há mais de uma década pelo Partido dos Trabalhadores apresentar tal comportamento?, indagava ele.
Eu fui o incumbido de tentar explicar a ele a razão deste fenômeno. Vou escrever aqui aquilo que tentei explicar a ele. Logo de cara lhe disse: essa não é uma pergunta fácil de responder. Seria necessário todo um debate sociológico. Vamos do início. Primeiro: no Acre, o PT nunca foi bem-sucedido em suas disputas pelo Palácio do Planalto. Desde a polarização com o PSDB, os tucanos sempre tiveram vantagem.
Em 1998, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso recebeu dos acreanos 46% dos votos válidos; Lula, 30%. Em 2002, o petista se saiu melhor e venceu Serra com folga nos dois turnos. Tendência essa de todo o país. Em 2006, um ano após o estouro do mensalão petista, Geraldo Alckmin (PSDB) teve no Acre 51% dos votos, contra 42% de Lula, que tentava a reeleição e almejava já no primeiro turno.
O Acre foi o único Estado do Norte onde os tucanos bateram Lula, que por conseguinte só saiu vitorioso no segundo turno graças ao empenho dos companheiros acreanos. Mas aqui o PT tem uma situação mais do que confortável. Os irmãos Jorge e Tião Viana foram os protagonistas de um processo de reconstrução do Acre. Depois de décadas de mandos e desmandos, os petistas assumiram um Estado falido, destruído.
Com um governo de postura inflexível e indo a Brasília em busca de recursos, o PT tirou o Acre do ostracismo e levantou a autoestima da população. Das páginas policiais dos jornalões, o Acre passou a ser visto como o Estado da reconstrução. Vale ressaltar que esse processo inicial se deu ainda no segundo mandato de FHC, que mesmo sendo de legenda opositora sempre manteve boa relação política com os Vianas.
A chegada de Lula alavancou ainda mais essa ressurreição. Nunca na história desse país o Acre recebeu tantos recursos federais. Esses e outros motivos nos ajudam a compreender a hegemonia petista em âmbito estadual. Mas os dois governos de Jorge Viana e um de Binho Marques não têm sido suficientes para ajudar Lula a eleger sua sucessora, na primeira eleição em que o PT sai sem sua principal estrela.
É estranho também ver a candidata acreana Marina Silva atrás de José Serra. Qual a razão disso? No caso seria necessário um amplo debate. Creio que esta tendência detectada pelo Ibope se manterá até o dia 3 de outubro. E não adianta os petistas locais gastarem esforços para colocar Dilma na dianteira, a antipatia e rejeição dos acreanos por ela é grande. Parafraseando Silvio Martinello, “enjoado esse Acre”.
* Fabio Pontes é jornalista e escreve às quartas-feiras neste espaço. e-mail:
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