Como bem disse o governador Binho Marques, o Acre realmente é um lugar único. O Estado que tem 88% de seu território coberto com mata virgem é o segundo maior consumidor per capita de carne do Brasil. Só perdemos, lógico, para os gaúchos. O Acre continua a não ter comparações quando hoje pecuaristas e os antigos militantes do movimento de esquerda andam de mãos dadas.
Esse fato não é tão surpreso por também sermos Brasil. O que mais poderíamos esperar depois de ver Lula chamar Collor e Sarney de “companheiros”? Pois bem, esqueçamos nosso fisiologismo tupiniquim e voltemos ao agronegócio acreano. Na noite da última segunda-feira vi o quanto a política tem suas reviravoltas e conve-niências da hora.
O jovem Binho Marques que se embrenhava na floresta educando os filhos de seringueiros e organizando os movimentos de resistência ao avanço da pecuária na Amazônia esteve bastante à vontade entre aqueles que tanto combateu. Como observador que sou, pude notar que Binho talvez se sentisse ali um peixe fora d’água.
Por conta do cargo que ocupa, Binho é, digamos, obrigado a passar por essas situações. O petista acompanhou atentamente o discurso de meia hora da senadora-pecuarista Kátia Abreu, do Democratas, o DEM que antes era o PFL e bem antes a Arena – o partido de sustentação da Ditadura Militar; regime este que Binho também enfrentou.
Enquanto Kátia Abreu falava os pecuaristas a aplaudiam. No começo Binho chegou a acompanhar os aplausos, logo depois preferiu apenas ouvir. O governador posou para fotos ao lado dos líderes do setor, deu entrevistas e foi embora. Enquanto isso, a festa continuava ao som de uma mini orquestra e muitas guloseimas. Binho foi ao evento por que não poderia deixar de prestigiar o evento do maior setor produtivo do Acre.
São mais de 50 mil empregos diretos gerados e um montante de R$ 300 milhões em exportações por ano. Como destacou Binho, a agropecuária é um dos responsáveis por tirar parte da população acreana da miséria. Como chefe de Estado ele precisou deixar de escanteio (pelo menos nestes 4 anos) suas ideologias esquerdistas; precisou engolir cobras e lagartos.
Mas isso não quer dizer que o petista precise jogar na lata do lixo seus ideais e dizer que sente em casa diante de tantos fazendeiros. Binho não precisa manchar sua bela biografia política, não pode se induzir pelo “o fim justificam os meios”. Para que sua história não seja manchada, ele precisa desfazer o convite feito a Kátia Abreu para voltar ao Acre ainda neste ano, seu último como governador.
* Fabio Pontes é jornalista e escreve às quartas-feiras neste espaço. e-mail:
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