Imprensado

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Na semana que vem, mais exatamente na quarta-feira a noite, dia 27, no Cine-Teatro Recreio vai rolar um bate papo sobre a história da imprensa acreana. Esta atividade será realizada por um grupo de alunos do 1º período do curso de Comunicação da UFAC, coordenado pelo Prof. Wagner Costa.

Acontece que eles acharam por bem convidar a mim e ao meu amigo Toinho Alves pra participar deste primeiro encontro de uma série que eles irão fazer. E gosto muito de fazer estes bate-papos junto com o Toinho que sempre se tornam muito ins-tigantes, graças à brilhante capacidade deste de provocar reflexões inusuais. Entretanto, não posso me esquivar de dizer também que tratar da história da imprensa no Acre é sempre um imprensado danado devido à complexidade do assunto e a algumas das características que a imprensa acreana adquiriu ao longo do tempo. Por isso decidi, hoje, começar a rememorar alguns temas que já trabalhei a esse respeito de modo a ficar mais afiado pra quarta.

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 A história dos jornais do Acre é muito importante porque a maior parte da história do Acre foi escrita nas páginas desses periódicos. Com exceção da história de Revolução Acreana que ocupou diversos historia-dores ao longo do tempo e, mais recentemente, da história da luta dos povos da floresta nas décadas de 70 a 90 do século passado, todos os outros temas da história acreana só foram tratados pelos diversos jornais que aqui existiram ao longo do tempo, e foram muitos.

Em linhas gerais, a história de nossos jornais pode ser subdividida em três fases distintas: A primeira fase foi muito efêmera e durou poucos anos. Diz respeito ao período da Revolução Acreana (1899/1903) quando um jornal foi editado pelas autoridades bolivianas para fazer propaganda de seu governo e tentar reverter o quadro de grandes conflitos pelo domínio da região. Este jornal se chamava “El Acre” e foi publicado em Puerto Alonso (atual Porto Acre) no ano de 1901.

A segunda fase é mais longa e bem mais fértil. Ela começa com a anexação do Acre ao Brasil e a criação do Território Federal do Acre em 1904 e se estende até 1968. Em todo este período o Acre viveu grandes conturbações de caráter político e econômico. É importante ressaltar que em 1913 acabou o primeiro ciclo da borracha e entre 1942 e 1945 ocorreu o segundo ciclo da Borracha (também conhecida como a Batalha da Borracha). Apesar disso, a característica deste período foi uma grande proliferação de jornais em todos os municípios acreanos. Multiplicavam-se semanários, alguns de vida mais longa como o jornal “O Acre” e outros que duravam poucas semanas (como o jornal “O Progresso”, editado em 1904 pelo Gen. Thaumaturgo de Azevedo).

Para se ter uma idéia da força que o jornalismo tinha então, entre 1913 e 1920 Cruzeiro do Sul teve seis títulos circulando simultaneamente. Mais do que Rio Branco hoje. E o mesmo pode ser estendido para as outras cidades (Rio Branco, Xapuri, Tarauacá e Sena Madureira) da época. Outra característica importante desse período é que os jornais eram os porta-vozes da autonomia acreana, portanto com forte viés político, em uma época em que os acreanos viviam sob a tutela do Governo Federal. O que explica a quantidade de títulos com referencias diretas ou indiretas ao movimento autonomista.

A terceira fase tem inicio em 1969 com a criação do Jornal O Rio Branco, filiado aos Diários Associados de propriedade do lendário Assis Chateaubriand. Com a criação deste jornal se inicia a fase dos jornais diários e uma maior estabilidade dos títulos em circulação, bem como um maior profissionalismo, no fazer jornalístico. Logo foram criados outros títulos como “A Gazeta do Acre” (que inicialmente se chamava Repiquete), “A Tribuna” e mais recentemente o “Página 20”.

Apesar dessa mudança de semanários para jornais diários, muitas características do jornalismo acreano foram mantidas, como: uma grande ênfase no cotidiano político local, a presença de jornalistas com textos de excepcional qualidade, a força de cronistas que além de retratar os costumes e a cultura local nos deixaram uma herança literária maravilhosa e a multiplicação de títulos relacionados aos grupos políticos regionais, entre muitas outras.

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Não se pode falar de imprensa acreana sem mencionar diversos jornalistas que marcaram época. Entre estes, na impossibilidade de falar de vários neste pequeno espaço da coluna, vale a pena citar o trabalho de João Mariano que, a partir de um enorme esforço pessoal, se tornou um dos mais importantes jornalistas da história de Cruzeiro do Sul.

O jornal “O Rebate” foi criado em 1921 e esteve sob direção de João Mariano entre 1946 e 1972. Tendo se tornado o periódico de maior longevidade do Juruá por se manter em circulação ao longo de mais de cinqüenta anos. Isso numa época em que fazer jornais em Cruzeiro do Sul, não era só difícil, era mesmo quase impossível. Afinal de contas, a dependência do transporte fluvial ou aéreo para trazer tintas, papel ou mandar confeccionar os clichês que seriam utilizados no jornal (e que eram fabricados em Manaus) frequentemente obrigava João Mariano a improvisar para manter a circulação de seus noticiosos. Por isso é tão comum encontrarmos antigos jornais editados em papel rosa, ou verde, ou qualquer outro tipo de papel que estivesse disponível no momento da impressão. Valia tudo, até papel de pão, menos deixar de publicar “O Rebate” ou “O Juruá”.

E alguém há de perguntar. Mas se a dificuldade era tanta, porque ele ainda fazia dois jornais ao invés de um só? Segundo alguns informantes a resposta era bem simples: um era pra falar bem do governo, outro era pra bater no governo... Existe algum exemplo melhor da singular história da nossa imprensa?
Portanto, me parece que assuntos e debates interessantes é que não haverão de faltar no encontro da próxima quarta-feira... Bora lá?!!!

Marcos Vinicius Neves é historiador ( Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. )


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